Conto: Ana e as Palavras

A pequena Aninha sempre gostou das palavras, desde que começou a falar. Aprendia uma palavra nova e, se gostasse dela, repetia sem parar.

A primeira delas foi samba, que meu marido adora e sempre botava para ela ouvir. Ela aprendeu e, pro orgulho do pai, repetia samba a todo momento. Depois cismou com fogão, e depois com camisola.

Quando entendeu o que eram as profissões é que veio o problema. Matava a gente de vergonha quando falava que quando crescesse queria ser vagabunda.

- Ela é bem redondinha, dá a volta no mundo - defendia a palavra da vez - Quero ser vagabunda.

Tentamos outras. Arquiteta não servia porque estava quase partindo ao meio. Cozinheira não porque embolava e dava nó. Estilista não porque dançava muito na boca.

Apelamos para profissões menos comuns, como artesã (rápida demais, não dá tempo pra parar e cai), enxadrista (feia que nem um camundongo velho), presbítera (sobe muito e Ana tem medo de altura) e vereadora (sem graça que nem o bolo de domingo da vovó).

Só deu descanso quando descobriu uma palavra "do tamanho do céu, com um monte de desafios e escorregadia que nem sabão".

Queria ser otorrinolaringologista.

Elton John em Recife, por Chico Carlos

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A quarta delas foi escrita por Chico Carlos. Parceiro de longa data, Chico é jornalista, recifense e da turma que se encontra há anos nas comunidades online para falar da música de Elton John, e conta como foi o show de Recife, em 10 de março.

Elton John: Monstro Sagrado da Música Pop

Os fãs de Elton John ainda não esqueceram o show do cantor realizado em 10 de março no Chevrolet Hall. O que mais despertou curiosidade foi o fato do artista voltar ao Brasil em 2013, para fazer cinco apresentações da turnê “quadragésimo aniversário da música Rocket Man” (São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e Recife) e encerrar com show solo na capital pernambucana. Quem esteve lá viu um espetáculo inesquecível, inigualável e histórico.

O formato acústico possibilitou que o público apreciasse melhor seu estilo musical e artístico do cantor londrino. O melhor de tudo: Elton John encerrou em Pernambuco sua turnê brasileira, desfilando hits que consagraram sua carreira ao longos dos anos. Em verdade, ele arrasou com seu piano vermelho, comprovando todo seu talento de “monstro sagrado da música pop”.

Em 25 de março, ao completar 66 anos, Elton John continua emocionando plateias, superando preconceitos e limites, vencendo seus próprios desafios. Quem foi que nunca assobiou uma música de Reginald Kenneth Dwight, digo melhor, de Elton John? Nos anos 70, esse palhaço pop do rock n’ roll encantou o mundo com sua maneira irreverente de ser. Passava como um foguete por cima de tudo alimentava o motor de sua criatividade musical. Transbordou suas loucuras juvenis, extravagâncias, luxos e excentricidade que venderam milhões de discos. Nos Estados Unidos, para um espetáculo no Troubador Club, de Los Angeles, para lançamento de sua carreira, o artista surpreendeu. Cantou, pulou sobre o piano e dançou como nunca. Conquistou a admiração do público. O vento soprou sobre a América, o sucesso de Elton John começou a decolar. Quanto mais nos enfiamos pelos anos 70, mais a sua música é um universo. Mundo de pisca-piscas, luminosos, estrelas de Hollywood, mansões, gosto pelo luxo, excentricidades, carrões correndo por estradas de tijolos amarelos.

Ainda nos anos 70, ninguém vendeu tantos discos como o “baixinho”, com suas manias e histórias estranhas. No palco, conquistou milhões de fãs e enfrentou crises inevitáveis que a fama oferece: tentativa de suicídio, separações, mergulho nos excessos - álcool, drogas e alimentação descontrolada. Ele experimentou do céu ao inferno. Foi preciso mudar radicalmente. Livrou-se das drogas e dos excessos. Abriu-se como poucas estrelas pop já o fizeram antes. Além de assumir de público sua homossexualidade, o que, aliás, não era segredo para seu público cativo e fiel. Convencido de sua “sorte” por não ter contraído o vírus da AIDS, criou, em 1992, duas fundações contra a AIDS, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, nas quais investe grande parte dos shows e direitos autorais, além de financiamento de pesquisas contra a AIDS, após a morte do adolescente Ryan White. “Sinto que tenho certa responsabilidade de usar o meu lado artístico para ajudar os gays ao redor do mundo a encontrar essa aceitação”, disse recentemente.

É o único artista que até hoje conseguiu obter seis lançamentos consecutivos no primeiro lugar da Billboard, sendo detentor, do recorde de single de maior vendagem da história, com a adaptação feita em 1997 da canção “Candle in the Wind” em homenagem à amiga pessoal, Princesa Diana, totalizando um total de 40 milhões de cópias vendidas. Pode-se falar tudo dele. Mas negar seu talento é imperdoável. Viva longa ao Sir Elton John, um artista de nosso tempo!

Elton John em Belo Horizonte, por Elton John

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A terceira delas foi escrita por... Elton John. Mas não o próprio, claro. O xará do astro é Paraibano e conta como foi o show de Belo Horizonte, em 09 de março.

O Show? Fantástico! Emocionante! Mágico! Surreal! Indescritível!

O tracklist? Basicamente, o mesmo de São Paulo, Porto Alegre e Brasília. A diferença? Em Porto Alegre e Brasília teve The One em versão solo e em Belo Horizonte também. Então, qual o diferencial em BH? A introdução do show foi feita meio que no improviso com parte do instrumental Sixty do álbum Good Morning To The Night, de 2012 (o mais recente do cantor e em parceria com a dupla australiana Pnau), até que a banda entrasse em cena tocando The Bitch is Back.

Elton John estava simplesmente espetacular! Era clara a felicidade dele e o sorriso estampado em seu rosto! Ele sentou no piano em The Bitch is Back; levantou, pediu para as pessoas se animarem, fez careta enquanto solava ao piano e tudo isso com as imagens múltiplas de Pamela Anderson do filme do show The Red Piano. E aí veio o “thunk”! Bennie and the Jets sendo reconhecida por boa parte do público e no telão aparecia ELTON do mesmo modo que no antigo formato do Caesar’s Pallace de Los Angeles.

Grey Seal manteve os ares lá no alto e eu vi um monte de gente se olhando como se se perguntasse: “onde estão as baladas?”. Estavam ainda por vir, mas antes um prato cheio com o rock da canção. Levon deu um ar de calmaria passageira até que o verso repetidas vezes cantado “He shall be, He shall be...” levantasse os mais afoitos (como eu) até o ponto mais alto das agitações: boa parte da plateia surpreendia-se com a capacidade de mudança de ritmo dentro de uma mesma canção nas performances de Elton John e de sua banda. Nota: muitas das pessoas que estavam no Mineirão estavam ali não necessariamente por serem fãs do pianista, mas apenas por terem uma noção de que Elton é uma grande artista. A partir de então passaram a conhecer um pouco do nível de musicalidade ao qual estavam deparados.

Depois da agitação de Levon, Elton, extremamente simpático, dedicou Tiny Dancer a todas as mulheres presentes e ofereceu a canção também a “uma bela dama que está fazendo aniversário hoje” e apontou para alguém lá na frente.

Em Believe mais emoção se fazia sentir e Elton afirmou que estava tocando-a justamente por “amar a palavra amor” e por “acreditar no amor” como caminho para a vida! Destaque para a excelente participação do percussionista John Mahon. Delírio e certa surpresa por parte de muitos ao verem uma música tão bela e tão profunda. Aí veio Mona Lisas and Mad Hatters como dedicatória à cidade de Nova York. A participação de Davey Johnstone (no banjo) e das quatro backing vocals é de arrepiar qualquer um.

O bom veio depois: Elton terminou Mona Lisas e disse “here we go”, emendando Philadelphia Freedom que, por sua vez, conseguiu mexer muitos esqueletos ali presentes. Quando Philadelphia foi encerrada, Elton iniciou o dedilhado de Candle in the Wind e milhares começaram a "reconhecer" mais o repertório. Muita gente arriscou cantar junto e acender celulares para acompanhar.

Até que Elton começou a intro de Goodbye Yellow Brick Road! Em uníssono, todos no Mineirão cantaram junto, até um bombeiro que estava próximo a mim. Foi a canção mais aplaudida até então e a mais ovacionada.

Após Goodbye Yellow Brick Road, Elton começa a brincar com o piano e a fazer a pequena jam que dá início a Rocket Man. Todos foram ao delírio quando ele começou a cantar "She packed my bag last night...". A multidão acompanhou e ainda o ajudou no refrão.

Elton anunciou em seguida que iria tocar uma música de seu último álbum, The Union. A plateia, no geral, meio que esfriou. Só os fãs mais ávidos acompanharam a canção. Consegui ver algumas cabeças sendo agitadas, algumas pessoas tentando acompanhar o compasso da melodia. Na sequência, I Guess That's Why They Call It The Blues foi tocada com um ritmo mais acelerado em relação à versão original.

Aí tudo ficou escuro e o tecladista Kim Bullard apareceu: a introdução de Funeral For a Friend (Love Lies Bleeding) foi divina. Muitos não sabiam do que se tratava até Elton começar a tocar a intro do piano. E o rock progressivo mais belo que já ouvi foi sendo executado com maestria para a surpresa de alguns e para certo estranhamento de outros. Para os fãs mais ávidos, delírio total.

Honky Cat veio em seguida e um balanço bem honky-tonk do piano do cantor. Muito bom e, para a minha surpresa, esta foi uma das canções mais acompanhadas da noite. Elton emendou de cara Sad Songs (Say So Much) e ficou pedindo para as pessoas se agitarem, para se levantarem e para irem para cima! Energia, vigor e muita vontade de agradar: esta foi a grande marca de Elton John na noite.

Daniel foi anunciada pelo dedilhar de piano e animou muito os ávidos por canções mais lentas. Muita vibração e muitos aplausos, as pessoas queriam mesmo era curtir a bela canção e se lembrar de que ela foi uma daquelas que marcou parte de suas vidas. Sorry Seems To Be The Hardest Word veio em seguida e também foi extremamente aplaudida.

Mas nenhuma canção da noite foi tão aplaudida ou tão bem recebida quanto Skyline Pigeon. Uma entrega absoluta e total, sem exceções. Todo mundo cantou, todo mundo vibrou e todo mundo se deixou levar pela melodia agradável e pela simpatia da canção.

Elton John mostrou porque é o grande pianista da história da música ao cantar The One solo. Extremamente feliz, extremamente entregue, ele fez a versão solo se tornar sublime ao ponto de sequer sentirmos falta dos demais instrumentos. Um espetáculo à parte este momento do show!

Após as apresentações dos músicos, Don't Let the Sun Go Down On Me fez mais lágrimas caírem! Numa versão destroçante e comovente, com destaque para a atuação do baixista Matt Bissonette, o belo soft rock sinfônico provou porque Elton John é um artista completo e porque mereceu cada aplauso da noite.

I'm Still Standing deu início à trinca de rocks da parte final do show com grande acompanhamento do público, especialmente nos “yeah, yeah, yeahs”. Muito agitada, a canção reanimou os que estavam meio parados e até o bombeiro não se conteve. O dedilhado de abertura para Crocodile Rock confundiu alguns, mas logo em seguida esses “perdidos” se deram conta de qual canção se tratava. Algumas pessoas do pelotão Premium levantavam os poucos "LA's" que foram levados ao estádio.

Saturday Night's Alright For Fighting foi iniciada antes mesmo de os aplausos de Crocodile Rock se encerrarem. Fazendo jus a uma das canções mais hard rock de seu repertório, Elton John mostrou a que veio e fez muitos ali perceberem que as baladas são parte importante de sua obra, mas não são a única faceta de seu trabalho.

As luzes se apagaram. Era hora do bis. Elton retorna rapidamente e começa a autografar muitos pertences do pessoal. A inscrição "Captain Fantastic" de seu fraque ficou bem visível momentos em que ele se virava para assinar os pertences em cima do piano. O cantor segurou até uma bandeira do Atlético Mineiro para a revolta dos muitos cruzeirenses ali presentes. O melhor, depois que esses cruzeirenses vaiaram, foi a cara de espanto de Elton! Muito bom!

E aí vieram os agradecimentos, Elton John dizendo o quanto adorou ter tocado no Brasil nesses últimos dias, afirmando "não ter palavras para descrever o que significa entreter pessoas" como ele faz. Muito lindo tudo e, claro, ele dedicando Your Song a cada um que se fazia presente no show. Tudo belo, mas tudo passageiro, e o show no Mineirão, para nossa tristeza, chegava ao fim!