A Negação de Gaia

A grega Nadine era cidadã de uma sociedade que venerava Gaia, a deusa-maior.

Muito criticada por todas, negava-se a acreditar em sua existência e sua influência sobre a sua vida. Acreditava que suas alegrias e tristezas eram reflexo de suas próprias ações e decisões e, também, fruto de simples sorte ou azar. Apesar dos protestos de amigas e da família, recusava-se a reconhecer Gaia como sua grande benfeitora.

Morreu aos 96 anos, próspera e feliz, cercada pela família e por suas amigas mais próximas.

O que desejo para dois mil e quinze

Desejo pra você um ano novo de muita tranquilidade. Que 2015 seja um ano de ouvir mais e falar menos. Que você tenha mais paciência com as faltas dos outros. Nem sempre elas são faltas. E que você reconheça as suas.

Que você seja uma pessoa menos egoísta e mais generosa. Que doe sangue e que faça o bem sem esperar pelos holofotes do reconhecimento. Que você faça varias pessoas sorrirem. Que você aprenda a conversar sem se tornar o centro da conversa, sem tentar dominar os diálogos, sem tentar "ganhar" a conversa. Que você pense mais no coletivo e menos no individual. Que você entenda que quanto melhor para todos melhor pra você. Que você aprenda que é melhor comer ovo frito com os amigos que comer filé mignon sozinho.

Espero que os ímpetos de responder com agressividade ao que te incomoda sejam refreados. Pôr lenha na fogueira só ajuda quando você quer se aquecer. Que você pense duas vezes antes de agir intempestivamente. Ou, melhor ainda, que você tenha boas reações de primeira, sem a necessidade de pensar duas vezes para fazer o bem.

Que em 2015 você tenha amigas por perto. Não apenas porque elas vieram ate você. Mas também porque você foi ate elas. Que você procure mais do que foi procurada.

Que suas crenças ou ausência delas sejam respeitadas. Que não tentem te convencer de que sua filosofia de vida é errada. E que você não tente fazer o mesmo com os outros. Que você viva em um mundo onde as diferenças sejam respeitadas, ao invés de atacadas. Que você seja capaz de respeitar ao invés de condenar.

Que você possa olhar pra trás e ver que viveu e não apenas existiu. Que escolheu o que fazer e não apenas reagiu aos percalços da vida. Alias, que você tenha a oportunidade de poder escolher, e que reconheça que há pessoas que não tem este poder.

Que você não tenha atitudes preconceituosas, racistas, machistas, homofóbicas ou coisa parecida. Que você ajude a fazer da vida em comunidade um ambiente agradável de se viver. Que você viva em um mundo com menos desigualdades. Um mundo menos poluído. Um mundo menos barulhento. Um mundo menos violento. E que você seja parte do motivo para isso acontecer.

Que você aprenda que tudo é temporário, o bom e o ruim. Que você saiba perder e saiba ganhar. Que você não tome decisões importantes quando estiver com muita raiva com muita tristeza ou com muita alegria.

Que seus pais e seus amigos tenham orgulho de você. Que você seja a inspiração de outras pessoas. Mais disposta a dar do que a receber.

Que minta menos. Que julgue menos. Que odeie menos. Que pragueje menos. Que condene menos. Que ignore menos. Que esqueça menos. Que franza menos a testa.

Que você apenda a mudar de hábitos. E que aprenda que não precisa esperar por datas específicas para tomar decisões importantes e mudar de hábitos. E, por fim, que aprenda que primeiro de janeiro não é uma data em que dá reset na vida, como se tudo fosse magicamente mudar de uma hora pra outra sem necessidade de esforço pessoal.

Feliz ano novo.

Crônica: Um Acidente Não Dá o Que Pensar

Recentemente caí de três metros de altura e tive um traumatismo craniano leve. A médica falou que eu deveria gastar o meu salário todo em velas, porque meu anjo da guarda tinha chamado até ajudante para me salvar: eu podia ter morrido.

Muita gente veio visitar e uma pessoa fez uma pergunta filosófica: não dá o que pensar, não, Mário, quase ter morrido, de ter que mudar de vida?

Não, não dá.

Eu entendo a preocupação dela, porque é isso que nos é vendido o tempo todo: as histórias de gente que rala demais e aí depois que sofre um grande acidente, um enfarte, muda de vida e dá exemplo de superação.

Mas acontece que eu já decidi, há muito tempo, que não queria esse tipo de vida pra mim. Eu decidi que não queria ser uma pessoa que precisasse de uma experiência traumática para abrir os olhos para o que verdadeiramente importa.

Não dizem por aí que é importante a gente aprender com os erros dos outros porque a vida é muito curta para cometermos todos os erros possíveis? Esse é um erro que, desde cedo, eu aprendi a evitar. Escolhi sempre ter uma vida plena e satisfatória ao invés de ter uma história bonitinha de superação depois de ter me entregue para ser surrado pelos estresses da vida.

Há alguns anos, li num livro de Ricardo Semler uma coisa que ajudou a me nortear neste assunto:

Alguém que administra bem seu tempo e produz qualidade em tempo menor é necessariamente um atrevido. Se ainda sai para o teatro e cinema à noite, passa o fim de semana só com a família, e ainda busca os filhos no colégio para almoçar com eles, aí já configura um estado de deboche. Mas se ele conseguir sofrer o enfarte no próprio escritório, então é a glória.

Preferi ser debochado a ter a glória.

Claro que nem sempre acertei. Muitas vezes demorei para perceber e corrigir meus erros, e nem tudo na minha vida hoje está do jeito que eu gostaria, mas nada tão dramático, e tudo faz parte dos planos.

Não carrego mágoas, tento manter velhos amigos por perto, tenho poucas desculpas a pedir, carrego minhas tristezas com serenidade e lido com elas como velhas amigas. Quase tudo o que faço, faço por escolha, e tenho me dado cada vez mais uma das maiores liberdades que há: poder dizer não.

Busco sempre aprender e me tornar alguém melhor. Não só pra mim, mas para quem está em volta. E a cada passo, procuro o equilíbrio entre desejar o futuro e fazer as coisas agora antes que seja tarde demais.

O que sempre fiz foi, de vez em quando, me fazer uma pergunta semelhante: se eu sofresse alguma experiência traumática hoje, eu me arrependeria de como estou vivendo a minha vida?

Quando a resposta era sim, era hora de mudar.